É interessante e muito rico o contato com as pessoas. E é curioso como cada um constrói a sua vida, como cada pessoa monta a sua vida em torno dos seus valores e das suas fragilidades.
No consultório é onde podemos ver tudo isso com mais clareza porque, sendo um lugar onde as pessoas vão pedir ajuda, elas se permitem abrir mais e falar das suas inseguranças e dos seus sintomas. E os sintomas são muito variados e coloridos, principalmente quando a causa é de fundo nervoso ou emocional. Aí, as pessoas “criam” as combinações mais interessantes de sintomas. Frente a problemas emocionais, cada um, ao somatizar determinados sintomas, até então psicológicos, agride e ataca o seu órgão de “preferência” ou seu “órgão de choque”.
Aí começam: dores articulares, artrose, dores na coluna, gastrite, úlcera, psoríase, colite, diverticulite, sem falar de tonteiras, labirintite, desmaios, angustia, depressão…
Nós médicos, ali do outro lado, concentrados, atentos, compenetrados, ouvindo e armando o “quebra-cabeça” com aquelas queixas, na tentativa de “formar uma imagem”, ou seja, no sentido de perceber o que aquela pessoa está querendo dizer com tantos sintomas. E nos perguntando: por que ou para que ela está criando tanta doença? E com freqüência percebemos que é o momento em que ela está vivendo. Tudo isso tem relação com sua insatisfação profissional ou com sua decepção afetiva. E, se julgando culpada, ela se pune, “construindo” tantas doenças que, embora no início sejam apenas psicológicas, na frente se transformarão, é lógico, em um câncer, um infarto, um acidente vascular cerebral (derrame).
Mas por que isso? Claro que tudo é muito inconsciente e daí a dificuldade de as pessoas admitirem que não é uma doença orgânica. E fazem tomografia, ressonância magnética, vários outros exames e todos se mostram normais. E ela vai de médico em médico como que procurando uma doença. Ao invés de relaxar e viver a vida feliz, não, luta para provar que o seu problema não é psíquico, insiste em procurar uma doença.
Na vida nós só temos duas direções: ou você está para o lado da vida ou está para o lado da morte. Com esse comportamento, a pessoa está, sem dúvida, para o lado da morte. Não que ela queira isso conscientemente, mas no fundo o seu grande desejo é de morrer. É aquele momento da vida em que a pessoa toma uma forte decisão. É como se ela estivesse a nove mil metros de altura, pilotando um avião e, de repente, resolvesse desligar os motores. Ela pode levar anos para cair, mas o pior, é que ela já decidiu cair. Ela já programou a sua queda. A mensagem que ela passa para ela mesma é muito negativa. Nesse momento, ela decidiu a sua morte. Agora é só uma questão de tempo. E, para quem decidiu morrer, o próximo passo é escolher e construir um motivo para morrer. E aí começam os sintomas, as dores e a peregrinação de médico em médico até que realmente um dia ela consegue: surge um câncer, um derrame ou outra doença.
Sem dúvida, nós é que escolhemos os nossos caminhos, as pessoas é que constroem as suas próprias doenças. Portanto, para se ter qualidade de vida, para se viver sem depressão, disposto, animado, feliz, precisamos cultivar a nossa motivação, a nossa missão na vida. Não apresse o rio, não antecipe a sua morte, não construa a sua doença. Cuide muito de estar bem profissionalmente e afetivamente, pilares importantes para nossa realização.
Eduardo Pinho Tavares